segunda-feira, 23 de Novembro de 2009






Parto mais longe, onde não existem máximas, extintas culpas em ouvidos frenéticos ou
monótonos.

Falei-te do absurdo como se fosse uma cor a acrescer aos sentimentos, ou então um dom.

Falei-te das minhas coisas como se fossem tuas.

E falei-te desses lapsos de dúvida que transtornam a maneira de viver.

Falei porque as palavras se trocam, se atiram, se oferecem e se negam com abundância, com uma
rapidez que não altera as pulsações e não necessita do sangue como pressuposto.

Presumia sempre uma diferença, um abismo que as palavras não supõem, não discutem.E o
tempo passou-se.

E o eco renasce-me nos meus dedos.

Não posso escrever-to porque não sei.




Caderno de Exorcismos - Joaquim Pessoa / Fotografia Ralph Gibson





E resolveste partir...


Assim...


Sem te despedires...


do nosso mundo...

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009







Este outro que também me habita

talvez proprietário, invasor,quem sabe o exilado neste corpo

estranho ou de ambos,

este outro a quem temo e ignoro, felino ou anjo,

este outro que está só sempre que estou só,pássaro

ou demónio,esta sombra de pedra que tem crescido dentro e fora de mim,

eco ou palavra, esta voz que responde quando me perguntam

algo,

o dono de meu enredo, o pessimista e o melancólico e o

emotivamente alegre,

este outro,

também te ama.




Darío Jaramillo Agudello (Poeta Colombiano)







encontrámo-nos no valentino em turim

e viajámos por toda a itália de comboio,

dormindo juntos.

eu não falei em sexo.

disse dormindo juntos.

coisa de que a sexualidade é,e não é, uma parte.

é esse dormir juntos

que é sagrado para mim.

bocejarmos juntos.

podes ter sexo com qualquer pessoa

mas com quem podes dormir?

odeio-te

porque dormiste comigo

e me deixaste.



Paul Durcan - Felicity in Turin

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009






o momento da decisão é um momento de impiedade. escolhemos aquilo que é bom para nós, e os outros que se aguentem. há com certeza excepções altruístas, ocasionais ou reincidentes, mas em geral é cada um por si. a nossa decisão muitas vezes não tem mal nenhum, o mundo continua todo exactamente como dantes, fica tudo esquecido num instante. mas há decisões que afectam toda a vida de terceiros, de alto e baixo, e durante anos. quem dispõe com impiedade da vida dos outros está no seu legítimo direito, mas também ter que ser homenzinho (ou mulherzinha) suficiente para aguentar o embate. não falo de vinganças, que é coisa que detesto, ou de ressentimentos, que talvez sejam ainda piores que a vingança; o que eu digo é que quem dá uma navalhada tem de estar disposto a conviver com a cicatriz na cara de quem esfaqueou. seria grotesco que protestasse contra a cicatriz, por inestética e ofensiva, quando segurou a arma branca que rasgou o rosto alheio. a impiedade da decisão tem de ser obrigada a conviver com a impiedade dos resultados da decisão. é um espectáculo lamentável? ah, só reparaste agora?




Pedro Mexia

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009








agora não. talvez daqui a uma hora, amanhã, depois de amanhã, mais tarde, mas agora não. agora aguenta-te, finge que és forte, sorri ou, pelo menos, puxa os cantos da boca para cima: se mantiveres os olhos secos vão pensar que é um sorriso...



António Lobo Antunes




tinhas razão, toda a razão, razão antes de tempo, razão tantos anos antes. viste


numa fraqueza um desastre, escolheste os adjectivos que se iam tornar substantivos,


e disseste que a vida não estava do meu lado. e foi então que me apresentaste a morte,


apenas para que eu falasse com alguém enquanto tu viravas costas.



Pedro Mexia